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Eventos | 08/11/2018
No Salão do Automóvel, mulheres são tratadas mais como enfeite do que como consumidoras
O Salão do Automóvel de São Paulo abriu as portas para a imprensa no dia 6 e recebe o público até 18 de novembro. Desde a edição de 2016 a principal mostra de carros da América Latina sofre uma série de críticas pela forma como exibe as mulheres. Não é para menos: estima-se que a população feminina tenha influência em 90% das decisões de compra de carros. Apesar deste dado, o evento brasileiro é tradicionalmente um espaço que trata mulheres mais como enfeite do que como público consumidor ao rechear os estandes com modelos vestidas com roupas justas e decotadas.

No Salão do Automóvel 2018 as mulheres encontram um evento um pouco mais receptivo, com menos exposição feminina do que a edição anterior, sem um foco tão claro apenas no público masculino. Ainda assim, algumas marcas decidiram repetir antigas fórmulas, como a Kia, a Volkswagen e a Audi, colocaram em seus espaços um time de mulheres com roupas coladas ao corpo e, em alguns casos, com decotes generosos.

Por outro lado, marcas como Jeep, Fiat e Nissan apostaram em reunir recepcionistas de ambos os gêneros, com roupas mais conectadas com a narrativa que estas empresas querem apresentar ao público do que focadas nos atributos físicos das modelos. A Ford também colocou fim ao ultrapassado clichê de relacionar carros e mulheres bonitas no estande e decidiu deixar em destaque só o que deveria realmente interessar para quem visita o evento: os carros.

MULHERES EMPRESTAM A IMAGEM PARA O SALÃO, MAS TÊM POUCA VOZ NO EVENTO


A postura das marcas de posicionar mulheres como se fossem acessórios dos carros no Salão do Automóvel é um reflexo da desigualdade presente dentro da própria indústria automotiva. Nos dias em que a mostra abriu só para jornalistas 20 marcas promoveram coletivas de imprensa para apresentar suas novidades.

Quase todas as apresentações foram conduzidas apenas por homens. Em apenas três destes eventos uma executiva subiu ao palco como porta-voz da marca. Nina Dragoni, diretora de marketing e produtos da BMW, falou pela companhia na coletiva de imprensa. Algo que se repetiu com a Tania Silvestri, diretora comercial da Jeep, e com Priscilla Cortezze, diretora de comunicação da Volkswagen. Nas outras 17 apresentações só homens tiveram um microfone nas mãos para contar as novidades das montadoras em que trabalham.

A falta de voz para as mulheres no Salão do Automóvel acontece justamente porque elas não estão na liderança das fabricantes de veículos. Segundo a pesquisa Presença Feminina na Indústria Automotiva, só 17% da força de trabalho desta indústria é das mulheres, que chegam a ganhar até 34% a menos do que os homens. O estudo Liderança do Setor Automotivo, que será divulgado por Automotive Business nos próximos dias, mostra que apenas 6% dos cargos da alta gestão desta indústria são ocupados por mulheres.

Assim, a desigualdade dos estandes do Salão do Automóvel vai muito além de uma questão pontual: é a expressão de uma cultura corporativa muito presente na indústria de veículos.

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