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Indústria | 09/01/2012
O enorme desafio de reduzir custos para a indústria competir
De acordo com a décima terceira edição do levantamento Economia Brasileira em Perspectiva, publicada pelo IBGE em 9 de dezembro de 2011, o setor industrial foi o que mais teve a participação reduzida na composição do crescimento do PIB e deve ser em 2011 a menor componente no crescimento, como aponta a Figura 1.

Competitividade da indústria

Fatores como a melhoria da distribuição de renda na população brasileira, a elevação dos preços das commodities agrícolas e minerais, apreciação do real frente a outras moedas e as ainda elevadas taxas de juros internos colaboram com esta situação. Destaca-se que as previsões feitas para 2012 mantêm a participação do setor industrial muito abaixo da sua histórica contribuição para o crescimento do País.

O setor automobilístico representa cerca de 24% do setor industrial brasileiro. Globalmente, é reconhecido como área que cria empregos de qualidade, fomenta a inovação tecnológica, atrai elevado nível de investimentos e, principalmente, mobiliza e multiplica seus efeitos por toda a economia e sociedade.

O Ipea publicou texto sintetizando que a cadeia automotiva é a mais importante da economia brasileira quanto à indução direta e indireta de crescimento para os demais setores, com efeito significativo sobre a difusão de progresso técnico no Brasil. Uma análise detalhada desse impacto pode contribuir para a indicação de estímulos necessários para a retomada da relevância do setor industrial no crescimento e na qualidade do PIB brasileiro.

Considerando-se o aprofundamento da crise européia e a redução da atividade doméstica (crescimento zero do PIB no terceiro trimestre de 2011), torna-se necessário no curto prazo adotar ações que estimulem a demanda. A reversão das medidas macroprudenciais e a redução das taxas de juros em curso devem ser perseguidas e aceleradas.

O mercado automobilístico brasileiro apresenta no longo prazo perspectivas bastante positivas. Os cenários mais prováveis indicam a superação da barreira de seis milhões de veículos comercializados ao ano no final desta década. Esse patamar coloca o mercado local de automóveis entre os mais atrativos no cenário internacional e deve provocar acirramento da forte disputa pela demanda crescente.

Nos últimos seis anos, o avanço das importações no mercado interno de automóveis cresceu significativamente. Por outro lado, no mesmo período, constata-se uma queda expressiva da participação das exportações na produção. A Figura 2 apresenta em detalhes esses dados.

Competitividade da indústria


Os indicadores apresentados apontam que a competitividade da produção local tem sido fortemente afetada. Se essa situação persistir, grande parte do atendimento do atraente mercado brasileiro de veículos poderá ser feito por produtos fabricados fora do País. As consequentes perdas de oportunidades referentes à geração de renda, emprego e “conhecimento” para a sociedade brasileira são evidentes.

A análise detalhada das causas da perda de competitividade da produção local evidencia a necessidade de fortes ações para reduzir custos que incidem interna e externamente sobre a cadeia produtiva. A Figura 3 compara custos de produção de veículos médios semelhantes fabricados no Brasil, México, China e Índia.

Competitividade da indústria

A decomposição dos fatores que afetam os custos de produção em cada país mostra as causas que sobrecarregam, em muito, a fabricação no Brasil. Podem ser mencionados os seguintes ofensores da competitividade:
- O custo financeiro ainda se encontra entre os patamares mais elevados do mundo, tanto para financiar a produção quanto para o consumo;
- O custo de lidar com a burocracia, regulatórios e legislação tributária no Brasil é o maior entre mais de 150 países pesquisados pela PwC para o relatório Doing Business 2011, publicado pelo Banco Mundial;
- A valorização do real frente a maioria das outras moedas demonstra o fortalecimento da economia brasileira. Contudo, os avanços de produtividade e capacidade de inovação da economia como um todo não têm sido suficientes para compensar essa valorização, afetando fortemente a competitividade do parque industrial aqui instalado;
- Apesar da riqueza da matriz energética, o Brasil apresenta elevados custos para energia e outras utilidades. O kWh de energia elétrica no País custa € 0,81, contra € 0,09 na Argentina, € 0,05 no México e € 0,58 na Europa.
- O custo de matérias-primas onera de forma expressiva a produção. O aço, principal componente de veículos e autopeças, tem preço historicamente 35% a 40% acima dos níveis internacionais;
- O preço da mão de obra no Brasil supera o da mexicana, apesar de o trabalhador brasileiro receber salário menor. A explicação está nos elevados encargos, taxas e contribuições que incidem sobre as folhas de pagamento. O trabalhador brasileiro leva para casa por volta de 55% do custo total da mão de obra; o mexicano, por volta de 75%;

Muitas das causas mencionadas afetam a economia como um todo e explicam o patamar inicial de composição de custos superior ao encontrado em outros países. Muito pouco pode ser feito isoladamente pelas empresas para reduzir os efeitos desses custos de produzir no Brasil.

Para se manterem competitivas em um setor globalizado como o automobilístico, as empresas locais devem obter ganhos de produtividade e capacidade de inovação muito superiores às de suas concorrentes de outros países. Os ganhos deveriam ser suficientes para superar a desvantagem ilustrada no patamar inicial de custos externos à cadeia. Infelizmente, os dados ilustrados na Figura 2 não permitem dizer que a batalha está sendo vencida.

Na corrida pela competitividade no setor automobilístico mundial, as empresas que optam em produzir no Brasil largam alguns quilômetros atrás e com um peso adicional em sua estrutura. Enquanto isto, os concorrentes que produzem no exterior contam com incentivos que são verdadeiros aditivos à competitividade.
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