home not�cias an�lise quem � quem ABTV

acesse aqui a versão padrão

Carreira | 21/11/2011
O novo engenheiro da mobilidade
As publicações especializadas em veículos dos anos 60, 70 e 80, em suas projeções de como seriam os carros no século XXI, quase sempre os representavam voando, utilizando combustível nuclear, ou então levitando em estradas magnéticas. O carro do desenho animado “Os Jetsons” era tido como possível em 50 anos.

Não foi bem assim. Ainda usamos motores a combustão de ciclo Otto ou Diesel na maioria esmagadora das aplicações mundiais e podemos dizer que a evolução no setor automobilístico não foi tão revolucionária quanto todos os analistas e futurólogos previram. No entanto, quase tudo num automóvel foi otimizado mas o conceito original continua bastante adequado.

Várias novidades estão a caminho: combustíveis alternativos, carros híbridos e carros elétricos com baterias recarregáveis de média duração. O Brasil desponta como o maior produtor de energia renovável. Novas tecnologias, já em testes, permitirão acrescentar aditivos ao álcool combustível e torná-lo próprio para consumo em motores de ciclo Diesel sem mudanças significativas e poluindo muito menos. Também há o biodiesel feito de cana de açúcar, que estará em breve nos postos.

Apesar dos avanços, por melhor que seja o veículo, ninguém quer ficar horas nele para ir de casa ao trabalho como acontece hoje em São Paulo e em outros centros urbanos do País e do mundo. É desumano, poluente, caro e inseguro. A percepção dos consumidores de automóveis hoje em dia é fortemente impactada por outras tecnologias. O cliente que compra seu carro deseja encontrar GPS, MP3, bluetooth, câmbio automático com tiptronic na alavanca e no volante, ABS, airbags, controle de tração, luzes de xenon e tudo o que o dinheiro alcançar.

Montadoras coreanas e agora as chinesas estão equipando seus modelos com muitos acessórios que só existiam em carros de luxo, trazendo para carros populares um nível de sofisticação bem alto. Ao ler sobre essas novidades, o consumidor as quer instaladas no seu carro a um preço competitivo o mais rápido possível.

A vida pulsa no ritmo da internet e os clientes estão em total harmonia com isso. O crescimento contínuo dos serviços de banda larga dá uma ideia da importância dessa ferramenta em quase todos os campos de nossas vidas. É na rede que reside grande parte da inovação, facilidade, comodidade e qualidade de vida que os consumidores buscam em tudo o que consomem. Da simples informação sobre o carro, até a experiência virtual de montá-lo no site e depois comprá-lo online, a rede é uma realidade na indústria automobilística.

Esse é entorno que o engenheiro da mobilidade hoje habita. Cabe a ele transformar um dos maiores sucessos da indústria mundial em um produto ainda mais completo e confiável. Agradando aos compradores tradicionais, respeitando a força feminina, os jovens e os profissionais que usam seus veículos para transportar quase tudo o que é consumido país.

Também cabe aos engenheiros da mobilidade encontrar a solução para nossas malhas viárias. Não adianta enfiar a cabeça no buraco. Poder público e privado terão que sentar à mesa prontamente para evitar um completo colapso do desgastado modelo atual.

O maior desafio das áreas de recursos humanos do setor é que bem menos engenheiros estão se formando e escolhendo trabalhar na indústria automobilística. Preocupante também é que o nível acadêmico está muito distante da realidade de mercado. Cursos de engenharia são considerados maçantes e apresentam um nível de desistência alarmante. Mais uma área para imediato alinhamento entre governo e iniciativa privada.

Ao ingressar na universidade, os jovens estudantes de engenharia desejam aliar o mundo acadêmico ao mundo cotidiano. E o cotidiano hoje inclui internet, iphone, netbooks e outras ferramentas de aumento de velocidade na obtenção de produtos, serviços, diversão e conhecimento. Infelizmente, quase sempre o que encontram são professores que ainda ditam a matéria e lecionam como se fazia no passado, deixando o estudante totalmente frustrado.

Vale a pena persistir. Os que vencem os bancos escolares e ingressam no setor automobilístico encontrarão um terreno fértil para seu desenvolvimento profissional. O automóvel, assim como todos os produtos desenhados para ajudar o consumidor no dia-a-dia, está evoluindo para adaptar-se ao seu proprietário. Ele é produzido em massa, mas as tendências apontam para a personalização. De cores à funcionalidade, o carro terá cada vez mais a cara do seu dono. Será como o computador e o celular, uma extensão dos domínios de seu proprietário.

  Como aliar produção seriada a personalização? Como garantir os padrões de segurança e ao mesmo tempo inovar? Cada desafio oculta uma oportunidade de superação, de novas ideias que podem surgir em algum ponto do planeta. Carros de código aberto? Desenhos em grupo? Softwares capazes de multiplicar a utilização dos veículos? O bom de tudo é que a indústria segue tão fascinante quanto sempre foi e as possibilidades seguem atraindo a atenção dos profissionais que gostam de desafios e tecnologia.

O novo engenheiro da mobilidade deverá respeitar a relevância de tudo que se criou até hoje, usar com muito mais propriedade as emoções no processo criativo e levar em conta aspectos provenientes de outras tecnologias. Seu talento pelas ciências exatas deverá ser arejado pelos desejos, pelos sonhos de seus clientes e também pela responsabilidade ambiental. O automóvel ainda tem muito a integrar à vida do ser humano, facilitando sua existência, trazendo-lhe prazer em deslocar-se pelo planeta em conforto, segurança e estilo.

Este texto foi publicado originalmente no livro "SAE, 20 anos da mobilidade no Brasil", que marcou o 20º aniversário da Sociedade dos Engenheiros da Mobilidade no País.
[ voltar ]