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INOVAÇÃO | 20/07/2021
Crer para ver: por uma indústria com foco no longo prazo


Seria interessante fazer as contas do que se perdeu no Brasil pelos erros de um governo que não acredita na importância de ter uma política industrial e de empresas que focaram apenas no curto prazo. É uma conta complexa e incômoda. Mostra erros seguidos de mais erros. Em nome do imediatismo, entregamos nossa indústria para a China, quebramos a cadeia inteira de fornecedores, desintegramos empregos e renda.

Qualquer estimativa, por mais grosseira que seja, evidencia o que dizemos. Segundo comunicado emitido pela Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores) em 2 de julho, somente no primeiro semestre deste ano a falta de componentes fez com que 201 mil veículos deixassem de ser vendidos. Em uma avaliação superficial, poderíamos assumir que cada veículo não vendido gerou perdas de 10 mil reais em impostos não recolhidos e da mesma quantia em lucros que as montadoras não receberam – isso em um cálculo rudimentar.

De qualquer forma, estamos falando de R$ 2 bilhões em impostos a menos e R$ 2 bilhões em faturamento a menos. Nada mau para um semestre: algo como R$ 600 milhões deixaram de circular mensalmente na economia.

É possível ir além, dividindo os R$ 2 bilhões por 100 mil reais, número considerado referência de faturamento per capita na indústria e, assim, inferir o número de vagas que foram incineradas. Mas decidimos parar por aqui, certos de que, mesmo assim, receberemos duras críticas por esses cálculos. Não pela imprecisão, que admitimos, mas pela dura mensagem que eles transmitem: a de que trabalhamos em um país cujo governo e indústria operam olhando para os demonstrativos de resultados do período e são muito pouco desenvolvimentistas.

Esses números são apenas a ponta de um iceberg de décadas de destruição de valor, parte dele transferido para os colegas chineses, engenheiros e trabalhadores como nós. Só que do outro lado do mundo e operando em um ambiente de conquistas no futuro. Olhando para trás agora, perguntamos sinceramente aos nossos C-level, pedindo que respondam como brasileiros: será que valeu a pena a estratégia das montadoras de arrochar a cadeia? Será que foi uma decisão acertada focar em reduções e mais reduções de custos, sem limites, até que companhias que davam emprego havia 50 anos sucumbissem? Até que fábricas fechassem? Montadoras deixassem o país?

Aos governos que tivemos e temos, perguntamos quanto tempo mais há que se esperar para que se decida estancar a desindustrialização no Brasil. É arrepiante ouvir o governo falando em cortar incentivos à inovação. Aumentar impostos de uma indústria já combalida para pagar as contas de uma das máquinas públicas mais inchadas e ineficientes do mundo.

Estive dos dois lados por períodos quase equivalentes. Fui governo e fui indústria, e, como tal, posso assegurar que, nas esferas de governo e do mundo dos negócios, as lógicas são – precisam ser – completamente diferentes. Foi uma das maiores lições que aprendi. Não se pode gerir um ministério aplicando as máximas do lucro, gerenciando caixa e com visão de curto prazo. Não funciona. Governo não é empresa e muito menos banco. Um bom governo tem que assegurar desenvolvimento. Muito diverso das empresas, que devem gerar caixa, e de seus dirigentes, que perseguem bônus por resultados imediatos, sem qualquer preocupação com as consequências no futuro.

Há, sim, algumas raras exceções válidas, momentos de lucidez no governo, na maioria das vezes iniciativas de escalões técnicos e inferiores. Como o programa Rota 2030, por exemplo. Quando foi apresentado, nos deu a falsa esperança de que poderíamos planejar e inovar a longo prazo. O governo parecia enfim ter compreendido que esse tipo de incentivo não é renúncia fiscal, mas sim um esforço e investimento para aumentar a arrecadação e a sustentabilidade de sistemas industriais estratégicos para o país.

As indústrias que acreditaram e investiram veem-se agora diante de governantes prontos a rasgar os decretos e descumprir o combinado. Enquanto na China os impostos da indústria que exporta são devolvidos ou zerados, aqui fazem-se malabarismos e maldades para aumentar as já altíssimas alíquotas. A China acreditou no desenvolvimento de sua indústria, investiu e assim tornou-se a maior potência do mundo, à frente inclusive dos Estados Unidos. Nós aqui estamos matando a indústria para ver o que acontece depois. Enquanto aqui vale o ver para crer, os inteligentes chineses creram para ver.

Valter Pieracciani é sócio-fundador da Pieracciani Desenvolvimento de Empresas.
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