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AUTOFOCO | 08/07/2021
O pioneirismo da origem da FNM no Brasil

Os antigos FNM eram sinônimo de caminhão nos anos 50 e 60, pois a marca foi a primeira indústria automotiva brasileira (Foto: chicodaboleia.com.br)

Estamos contando, em três capítulos, as histórias relacionadas à FNM (FeNeMe), que inclui sucessivamente a fabricação de motores para aviões, a montagem de caminhões diesel e, recentemente, a constituição da FNM – Fábrica Nacional de Mobilidades S.A., que iniciará a produção de veículos elétricos. A empresa possui carteira de pré-pedidos expressiva para a produção de veículos elétricos de alta tecnologia, com fábrica na Agrale, em Caxias do Sul (RS). Começamos esta série de artigos com os fatos atuais, falando sobre a FNM Elétricos. Voltamos agora no tempo para tratar da Fábrica Nacional de Motores. E, num terceiro capítulo, falaremos da produção de aviões no Brasil com motores feitos na fábrica da FNM, em Duque de Caxias (RJ).

A FNM, estatal, foi criada em 1942 em Xerém, distrito industrial da cidade de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, para ser a primeira fábrica de motores de avião do País, idealizada pelo general brigadeiro Antônio Guedes Muniz, que dirigiu a criação e a fase inicial de operação da FNM - Fábrica Nacional de Motores S.A., e se tornou o diretor-presidente da empresa criada no bojo dos acordos entre o Brasil e os Estados Unidos sobre a cessão das bases aéreas e militares nas regiões Norte, em Barreiras, na Bahia e no Nordeste do Brasil, em Natal, no Rio Grande do Norte, durante a Segunda Guerra Mundial, para apoio militar do Brasil aos Estados Unidos.

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A FNM foi instalada para fabricar motores de projeto norte-americano, sob licença e com assistência técnica da indústria Wright, à época uma das maiores fabricantes de motores para aviação dos Estados Unidos. A iniciativa foi aprovada pelo presidente Getúlio Dornelles Vargas.

O general-brigadeiro Antônio Guedes Muniz tinha se formado na Escola de Engenharia Aeronáutica, na França, e em seguida trabalhou na fábrica de aviões Vultee Aircraft. Ao voltar para o Brasil, desenvolveu a versão brasileira do avião Vultee BT-15, que recebeu o nome de “Muniz M-5” e depois criou o “Muniz M-7”, que foi utilizado pela FAB – Força Aérea Brasileira e pelo CAN – Correio Aéreo Nacional, em uma operação financiada pelo governo dos EUA, em reconhecimento à cooperação do governo brasileiro durante a guerra como aliado.


Avião Vultee da FAB decolando do Aeroporto de Xerém, em 1945, já com o motor Wright, fabricado sob licença pela FNM

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, e a entrada de aeronaves norte-americanas a um preço bem reduzido – fruto da produção em larga escala para a contenda, a indústria aeronáutica brasileira viu o apoio oficial cada vez menor. Como a FNM possuía uma enorme infraestrutura, maquinários e fundições, iniciou em 1949 a fabricação de bicicletas, geladeiras e tratores, e alcançou sucesso ao começar a produzir caminhões e ônibus, assim tornando-se a primeira indústria automotiva do Brasil, dando início à primeira escola brasileira de formação de trabalhadores do gênero.



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A sede da FNM foi batizada de “Motor City” ou “Cidade dos Motores”, definida para ser uma inovadora cidade autossuficiente, que foi projetada pela empresa norte-americana TPA - Town Planning Associates, de Nova York, dos arquitetos Paul Lester Wiener (norte-americano nascido na Alemanha), Josep Lluis Sert i López (espanhol e reitor da Escola de Pós-Graduação em Design de Harvard) e Paul Schulz, que teve forte influência nas ideias de Le Corbusier.

A Cidade dos Motores começou a ser construída em 1943, em um local com mais de 1,5 milhão de metros quadrados em Xerém (antigo bairro de Santo Antônio), na cidade de Duque de Caxias, no estado do Rio de Janeiro, e foi uma obra de imensas dimensões e com instalações muito modernas, para atender a mais de 15 mil funcionários (embora o projeto tenha sido elaborado para 25 mil funcionários) e que tinha toda a infraestrutura para a perfeita atenção e desenvolvimento para os funcionário e suas famílias, com a Igreja de Nossa Senhora das Graças, escola, cinema, área de esportes, consultório odontológico e completa assistência médica, seguindo o novo modelo das cidades industriais norte-americanas.

DEIXAR A FÁBRICA ERA DESERÇÃO



O perímetro do empreendimento foi considerado área de segurança nacional e foi aplicado o regulamento das Forças Armadas. Seus trabalhadores receberiam um certificado de serviço militar, o que significa que eles eram trabalhadores "embutidos" e o abandono do emprego era considerado deserção. A FNM encontrou seu melhor mercado quando começou a construir caminhões, após um acordo com a italiana Isotta-Fraschini. A empresa montava caminhões D-80 que comprava como kits CKD da Itália e os vendia como FNM D-7300 no mercado local. A Isotta-Fraschini faliu em 1951 e a FNM fechou então um novo negócio com a estatal italiana Alfa Romeo.

Em 1958 a Alfa Romeo produzia sua própria linha de caminhões e a FNM comprou os direitos de produção das linhas 430 e 900, chamadas no Brasil de FNM D-9500 e D-11000, com carroceria específica projetada por designers brasileiros e com foco nas necessidades do mercado local. Esses modelos foram rapidamente aceitos, pois apresentavam diversas vantagens, como ter uma ampla cabine com duas camas e com estrutura imponente e muito robusta. O FNM foi o primeiro caminhão pesado do Brasil e se tornou figura fácil nas estradas, marcando presença nas obras de construção de Brasília, com seu jeito abrutalhado e o som grave do motor a diesel de seis cilindros.

Além dos caminhões FNM, chamados de gigantes sobre rodas, também foram produzidos chassis e motores para ônibus. A empresa foi apelidada pela população brasileira de "FeNeMê", como na grafia das iniciais “FNM” da Fábrica Nacional de Motores. Os famosos caminhões FNM foram durante anos os protagonistas do transporte rodoviário no país, e FNM era o apelido de qualquer tipo de caminhão.

O governo brasileiro iniciou em 1952 projetos para atrair o estabelecimento de fabricantes norte-americanos para o Brasil – Willys Overland, Chrysler, Ford, General Motors e as europeias Isetta, Auto Union, Volkswagen e Fiat.


Anúncios de revista exaltavam as qualidades do luxuoso sedã FNM 2150

Em 1960, em comemoração à criação de Brasília, a nova capital do Brasil, a “Fenemê” lançou seu primeiro automóvel, batizado de FNM JK 2000, em uma homenagem ao presidente Juscelino Kubitschek. O veículo foi reestilizado em 1969 e renomeado como “FNM 2150”. O sedã foi produzido até 1973 e tornou-se uma espécie de sonho de consumo, porém nunca obteve a mesma simpatia dos caminhões da marca, que viraram sinônimo de caminhão grande.

Em 1968, o regime militar do Brasil resolveu privatizar a FNM, que foi vendida à Alfa Romeo e, em 1977, foi adquirida pela Fiat, que passou a fabricar o caminhão pesado FNM 180 em Xerém por mais dois anos. Depois abandonou a FNM e passou a produzir caminhões com sua própria marca, Fiat Diesel, até 1985. Antes de a operação ser encerrada, a unidade de Xerém chegou a produzir caminhões com a marca Iveco, destacando-se o Iveco 80, o Iveco 190 H e o Iveco 190 Turbo.

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