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Panorama | 04/01/2021
Cinco lições que o mercado automobilístico aprendeu em 2020
Historiadores dizem que 1918 foi um dos piores anos da história da humanidade. Não bastasse o mundo entrar no quinto ano dos horrores da Primeira Guerra Mundial, ele ainda teria de sofrer com a chacina da gripe espanhola, que dizimou de 50 milhões a 100 milhões de pessoas ao final de dois anos dessa pandemia.

Como ninguém aqui viveu aquela época, podemos concordar que 2020 foi o mais dramático da nossa existência. Mas antes de esquecer de vez o ano que passou, é importante relembrar o que aprendemos com uma experiência tão traumática. E dá para dizer que o mercado automobilístico tirou desse ano cinco importantes lições.

1) Relançar antigos ícones é uma ótima aposta



Reviver modelos que viraram lenda nunca foi uma aposta tranquila. Em 2002, a Ford fracassou ao tentar resgatar o saudosismo do Thunderbird 1955. Em 1997, a Chrysler celebrou os antigos hot rods dos anos 30 e 40 com o Plymouth Prowler e também não foi longe. Em 2020, porém, dois ícones retornaram à vida e causaram grande alvoroço entre os fãs (e não-fãs também).


O Ford Bronco, já confirmado para o Brasil, pode render US$ 1 bilhão de lucro para a Ford

O novo Ford Bronco foi tão bem aceito que provocou uma alta de 11% nas ações da Ford em uma semana. Analistas estimam que a marca vá ter um lucro de quase US$ 1 bilhão de dólares em um ano de produção, pois deve vender facilmente 125 mil unidades anuais, considerando uma margem unitária estimada de US$ 7.500. É por isso que o SUV já está confirmado para estrear ao Brasil em 2021.


As vendas do novo e caríssimo Hummer esgotaram-se em apenas 10 minutos

Do lado da GM, o renascimento do Hummer – agora uma ambientalmente correta picape elétrica de 1.000 cv – recebeu elogios de crítica e público. O primeiro lote foi todo vendido em apenas 10 minutos, apesar de custar incríveis US$ 112.500 – um Corvette nos EUA começa em US$ 59.000.

2) Fabricantes descobriram nova fonte de receita



Por mais de 100 anos, os fabricantes de carros ganharam dinheiro basicamente fabricando carros. Mas, enfim, eles descobriram que dá para faturar alugando os próprios automóveis que produzem. Ainda é um negócio incipiente, mas promissor. As marcas perceberam que as locadoras proporcionalmente ganhavam mais dinheiro do que as próprias fábricas, especialmente com a venda de usados. Em geral são serviços de assinatura mensais, uma espécie de Netflix do carro, que já inclui seguro, impostos e manutenção.


Tiguan e T-Cross fazem parte do novo serviço de carro por assinatura da VW

Foi por isso que vimos em 2020 uma explosão de locadoras ligadas às fábricas. A Volkswagen criou o Sign&Drive com o T-Cross e o Tiguan, a partir de R$ 1.899 mensais. A Toyota dispõe do Kinto, que também oferece os modelos de luxo da Lexus. A FCA apresentou o serviço Flua!, disponível para dez modelos Fiat e Jeep a partir de 15 de janeiro. A Nissan iniciou um projeto piloto, por enquanto restrito a quem é ligado à fábrica ou aos fornecedores.

Até o segmento de luxo entrou nessa onda: o Audi Luxury Signature custa a partir de R$ 9.590 mensais ou R$ 11.990 se for um blindado e o Osten Fleet é indicado a quem deseja um BMW ou Jaguar (há até modelos elétricos), oferecido por uma rede de concessionárias.

3) Tesla escapou de vez da falência




A Tesla, que produz o Model 3, registrou prejuízo de US$ 1 bilhão em 2018

Equivalente à Apple da indústria automobilística, a Tesla estava à beira da falência em meados de 2019, como o próprio CEO Elon Musk já revelou. E não foi a primeira vez: em 2008 esteve a três dias de ir à bancarrota quando caiu do céu um investimento de US$ 40 milhões. De fato, desde a fundação, em 2003, a empresa californiana só deu prejuízo até chegar em 2020, quando enfim se tornou lucrativa – só em 2018 chegou a perder US$ 1 bilhão.

Agora, no entanto, essa ameaça virou história por três razões: conseguiu normalizar a produção e a entrega do Model 3, seu modelo mais barato, abriu sua primeira fábrica na China (o maior mercado do mundo para veículos elétricos) e iniciou a construção de outra planta na Alemanha, para abastecer os consumidores europeus. Foi ainda em 2020 que ela ultrapassou a Toyota como montadora mais valiosa do mundo (US$ 207,6 bilhões em julho), devido também a cinco trimestres consecutivos de lucros movidos pela venda de créditos de emissões a outros fabricantes.

4) Nosso mercado reagiu acima do esperado



No ápice da pandemia no Brasil, o Fundo Monetário Internacional (FMI) projetava uma queda no PIB nacional para 2020 de até 9,1%, lembrando que o pior número dos últimos 30 anos foi a redução de 3,55% em 2015. Nem precisa dizer que o cenário para a indústria automobilística também era catastrófico. Mas o que se viu foi uma retomada da economia muito rápida, especialmente no segmento de veículos.


A recuperação da indústria automobilística foi tão rápida que faltou até carro para entregar

As vendas internas em novembro já estavam nos níveis pré-pandemia e as exportações do mês subiram 38% mais que no ano passado. Os números de 2020 só não serão melhores porque os estoques ficaram baixos demais e faltou matéria-prima, o que pressionou os preços para cima e deixou algumas fábricas sem veículos para entregar.

5) Todos passaram a investir nos elétricos



A questão agora já não é se o carro elétrico vai dar certo. É quando ele passará a ser o principal produto da indústria. É verdade que no Brasil a questão é mais complexa, mas no exterior esse é um movimento sem volta.


Em 2021, a Volvo não venderá mais carros apenas com motor a combustão, mesmo no Brasil

Segundo a publicação especializada Automotive News, a Volkswagen vai investir US$ 41,5 bilhões até 2025 apenas em veículos elétricos, a Ford gastará US$ 11,5 bilhões em elétricos e híbridos até 2022, a GM aumentou seus gastos em 35% chegando a US$ 27 bilhões até 2025 e o grupo Hyundai/Kia destinará US$ 43 bilhões até 2025. A Volvo já avisou que só vai comercializar híbridos e elétricos (incluindo no Brasil) em 2021 e que 50% das suas vendas em 2025 serão de elétricos, atingindo 100% em 2030. Enquanto isso, os novos projetos de motor a combustão vão perdendo recursos ou sendo cancelados.

Mesmo no Brasil, apesar de não haver política de incentivos como na Europa, nos EUA, no Japão e na China, os veículos elétricos começaram a virar realidade, principalmente entre os veículos de serviço, já que seu custo operacional é cerca de 65% menor.

A venda total de modelos eletrificados (inclui os híbridos) deve fechar o ano em 19.000 unidades. É muito pouco comparado ao tamanho do mercado brasileiro, mas é 60% maior do que em 2019 e 378% acima de 2018. Entre os automóveis, Mercedes, Porsche e Audi lançaram veículos 100% elétricos. Entre os comerciais, a Volkswagen fechou em outubro a venda do primeiro lote de 100 caminhões elétricos e-Delivery para a Ambev. E isso é só o começo.


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Consultor do mercado automobilístico e jornalista especializado na área há 26 anos, Zeca Chaves é colunista do AUTOentusiastas e do portal Automotive Business; foi editor do caderno Veículos da Folha de S.Paulo e trabalhou por 19 anos na revista Quatro Rodas, onde foi redator-chefe.

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