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Panorama | 18/12/2020
Sucesso da Ram 1500 é o retrato do melhor e do pior do nosso mercado

A Ram 1500 estreou no Brasil 54% mais cara do que se esperava

Bastaram 18 horas para esgotar as vendas de um lote de 100 unidades da recém-lançada Ram 1500 Rebel. A notícia surpreendeu o mercado não só porque cada uma custava R$ 420.000, mas também porque é muito mais cara do que qualquer coisa que se assemelha a ela.

Se pensarmos em outra picape, a Ram custa 64% mais que a VW Amarok V6 Extreme, de R$ 256.400. Dentro da própria casa, ela supera facilmente sua irmã maior: a Ram 2500 sai por “apenas” R$ 362.000 apesar de ser maior (6,03 contra 5,93 metros) e ter motor diesel, ao contrário da novata, que traz um V8 de 5,7 litros a gasolina.

Não há dúvida que para a FCA, dona da marca Ram, essa é uma notícia maravilhosa, já que a empresa garantiu um faturamento de R$ 42 milhões em apenas um dia. Para o segmento automobilístico, podemos fazer algumas leituras, três positivas e uma negativa.

O que essa picape tem de mais?



Antes, porém, precisamos entender o que provocou essa corrida por um produto que parece tão distante da realidade brasileira. É importante saber que a Ram 1500 não se destina a compradores tradicionais de picapes.

Eu gosto de classificá-la como um modelo 3 em 1. Ao volante, ela tem uma ferocidade de um esportivo: com seu V8 Hemi de 400 cv, qualquer leve toque no acelerador a faz saltar para frente, como se estivesse pronta para o ataque. Com 0 a 100 km/h em 6,4 segundos, consegue ser mais rápida que um BMW 320i (7,1 segundos).

Na pista de terra, ela se mostra um legítimo off-road, graças a uma tração 4x4 com reduzida e bloqueio de diferencial, uma suspensão impressionantemente eficaz, proteção de aço sob o assoalho, vão livre de 24,9 cm e ângulo de entrada de 25,1 graus (o Jeep Compass 4x4 Trailhawk tem 22,8 cm e 29,1 graus).

No asfalto, a Ram 1500 comporta-se como um ótimo carro familiar, com muito espaço interno, conforto de rodagem superior a qualquer outra picape e uma fartura de equipamentos e tecnologia, como a central multimídia com tela vertical igual à dos Tesla e dos Volvo, teto solar panorâmico, sistema de som Harman Kardon de 19 alto-falantes e nove entradas USB, capaz de dar conta dos celulares de qualquer família.

Claro que a demanda reprimida também colaborou com o sucesso do lançamento, já que a picape estava sendo aguardada fazia um bom tempo. Ela mostrou sua cara no Salão do Automóvel de 2016 e de 2018 e, desde meados do ano, as concessionárias já tinham uma lista de encomendas, pois a previsão inicial era lançá-la em agosto.

Mercado em recuperação



Feita a introdução, é hora de discutir o que o frenesi da Ram revela sobre o mercado brasileiro, começando pelas análises positivas.

Em primeiro lugar, o episódio deixa claro que o setor automobilístico está se recuperando bem da crise. Novembro foi o mês com a maior venda do ano para os veículos leves e mostrou-se melhor ainda para o segmento de entrada. Segundo o ranking da Fenabrave, os carros mais básicos do país somaram 21.806 unidades comercializadas em 2020 contra 20.748 de 2019.

Segmento premium em alta



O êxito da Ram também é um sinal de como os veículos premium sofreram muito menos em 2020 do que os dos fabricantes generalistas. A marca americana cresceu 237% neste ano (sem contar o modelo 1500), a Volvo teve o melhor mês de novembro da sua história, a BMW vendeu mais nesse mês do que em novembro de 2019 e a Porsche atingiu já em setembro o recorde histórico de vendas para um ano (pela primeira vez vai comercializar mais de 2.000 unidades anuais).

Por fim, reflete também o nível de confiança do público de alta renda na economia em 2021. Afinal, esses 100 clientes endinheirados fecharam a compra hoje, mas sabem que só receberão sua encomenda em abril. Como estamos falando de empresários bem-sucedidos e ricos homens do campo, eles devem estar tranquilos quanto ao ritmo dos negócios no próximo ano para se comprometerem com uma transação como essa.

Escalada dos preços



Atrás desse tripé positivo, porém, há uma constatação pessimista. Poucos sabem que no início do ano estimava-se que a Ram 1500 desembarcaria no Brasil custando por volta dos R$ 260.000. Como a versão mais barata da nova picape foi tabelada em R$ 400.000, estamos falando de uma espantosa variação de 54%.

Mesmo que no meio do caminho tenha havido uma mudança na estratégia comercial da FCA, ninguém duvida que os carros vendidos no Brasil ficaram bem mais caros em 2020. A alta do dólar, a necessidade dos fabricantes de repor os prejuízos com a pandemia e a explosão dos custos da matéria-prima na indústria só agravaram um cenário bem conhecido: o automóvel zero-km já era considerado caro no Brasil antes da crise do coronavírus.


O preço do Renault Kwid subiu 16% neste ano, cinco vezes mais do que a inflação

Para compreender a gravidade do assunto, vamos comparar os preços atuais com os do início do ano. O Renault Kwid Zen subiu de R$ 40.390 para R$ 46.990 (um aumento de 16,3%), o VW T-Cross 200 TSI foi de R$ 84.990 para R$ 95.550 (12,4%), Jeep Compass Sport de R$ 116.990 para R$ 130.690 (11,7%) e Toyota Corolla Hybrid Altis de R$ 128.990 para 146.390 (13,5%).

O horizonte ganha contornos ainda mais sombrios quando nos damos conta de que a inflação IPCA acumulada entre janeiro e novembro foi de míseros 3,13%. Assim não tem consumidor que aguente.


E você, o que acha? Deixe abaixo seus comentários desta coluna ou envie sugestões para as próximas: zeca.chaves@gmail.com; ou visite minha página no LinkedIn.

Consultor do mercado automobilístico e jornalista especializado na área há 26 anos, Zeca Chaves é colunista do AUTOentusiastas e do portal Automotive Business; foi editor do caderno Veículos da Folha de S.Paulo e trabalhou por 19 anos na revista Quatro Rodas, onde foi redator-chefe.

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