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Mercado | 29/05/2020
Após a tempestade
*Em 2020, a pandemia veio de encontro ao Brasil em meio a um ambiente econômico de baixo crescimento, baixa competitividade e baixa utilização de capacidade. É fato que percebemos alguma melhora nos volumes de vendas no mercado interno desde 2017, mas também houve a redução das exportações de veículos, principalmente nos últimos dois anos, e consequentemente um baixo grau de utilização da capacidade instalada.

Adicionalmente a este período, houve uma proliferação de modelos, aumento do conteúdo tecnológico, o que significa necessidade de novas tecnologias, maior diversificação, requerendo então mais tecnologia e produtividade para os fornecedores dos OEMs e sistemistas.

No fim de 2019, houve uma melhora nas expectativas, mas quase no fim do primeiro trimestre de 2020 o País foi atingido pela pandemia da Covid-19, cuja intensidade impacta em todos os mercados e segmentos de negócios, não sendo ainda possível mensurar todas as suas consequências. É sabido, porém, que os volumes de vendas e produção serão afetados e não será possível atingir os volumes planejados anteriormente para este e para os próximos anos.

A TEMPESTADE PERFEITA


Adicionalmente à nova crise foi gerada uma crise política, de forma que atuam em conjunto para tornar o ambiente econômico ainda mais imprevisível. É a tempestade perfeita. Enquanto a China já apresenta sinais de recuperação, com a indústria de aço voltando aos níveis normais de produção , aqui temos que ajustar nossas previsões de redução toda semana, assim como também fica difícil para as autoridades sanitárias prever um horizonte para a pandemia, uma vez que não existe planejamento e alinhamento para resolver o maior problema atual, que é a pandemia.

Com uma expressiva depreciação da moeda, temos ao mesmo tempo uma redução da taxa de juros, porém com mais rigidez na concessão de crédito. Neste momento todo negócio está focado em proteção do caixa, o que significa postergação de investimentos e redução drástica de despesas. Como o horizonte de início de recuperação é imprevisível, com certeza muitos problemas financeiros e suas consequências ocorrerão ao longo da cadeia automotiva, principalmente nos elos mais fragilizados, como os tiers 2 e 3. De qualquer forma, a única certeza que se tem é que tudo isso vai passar e temos então que nos preparar para a recuperação.

APÓS A TEMPESTADE


Há agora diversos desafios decorrentes da crise, com várias questões em aberto: recuperação do mercado, continuidade dos projetos, linhas de crédito, capacidade econômico-financeiras das matrizes, comportamento dos consumidores etc. Um mundo em ebulição após a tempestade.

Como a experiência nos diz, o que melhor permite sair das dificuldades é a junção de esforços e principalmente a capacidade de gestão para enfrentar os desafios e não se omitir em relação a eles. Muitas mudanças que ocorreram durante a crise serão incorporadas ao mundo pós-crise.

Reuniões com plataformas virtuais passarão a ser preponderantes a reuniões presenciais. O distanciamento será uma regra, que seguirá junto com a automação. O O sistema de transporte público, incluindo ônibus, trens, aviões, embarcações, táxis, veículos de aplicativos etc. passará por adequações.

Gestão integrada com informações em tempo real e acesso por variados dispositivos eletrônicos - o mundo digital - será cada vez mais uma realidade.

É esperado que novas tecnologias, como eletrificação, tenham sua evolução afetada em função da necessidade de caixa para gerenciar a crise no mundo pós-crise. Por outro lado, é possível que veículos e máquinas autônomas trabalhando em circuitos fechados como mineração e agricultura avancem mais rápido do que prevíamos meses atrás.

As cadeias de suprimento, bem como as estratégias de manufatura, serão reavaliadas diante do questionamento da globalização em um mundo diferente devido as prevenções operacionais de portos, aeroportos, riscos às operações e proteções estratégicas.

Neste aspecto, a depreciação de nossa moeda e a volatilidade das referências globais se tornaram fatores importantes para melhorar nossa competitividade, mas por outro lado, as oportunidades de nacionalização também vão requerer investimentos em tecnologia e eficiência por parte dos fornecedores.

NOVO MUNDO, NOVAS AÇÕES


Resta então dizer que na cadeia produtiva como um todo um dos maiores desafios será entender e gerenciar a cadeia de suprimentos, definindo regras e condições que incentivem a melhorar a competitividade, não apenas com a natural busca de outras fontes de abastecimento, mas a fim de propiciar resultados sustentáveis, considerando a questão cambial, a baixa escala local e, mais recente, pelas fragilidades agora conhecidas de um supply chain muito dependente de importações.

Teremos então oportunidades para os tiers 2 e 3, porém os desafios de competitividade não resolvidos anteriormente permanecem como fatores impeditivos para a transformação de oportunidades em negócios atrativos para fornecedores e clientes.

Estes desafios serão mais facilmente enfrentados por meio da melhor utilização da capacidade produtiva, diversificação de mercados, atualização tecnológica e métodos eficazes de produção e gestão. Isso pode ser obtido com visão estratégica, acordos de cooperação, fusões e aquisições, ou seja, ações que tornam as empresas e sua cadeia mais robusta para enfrentar os novos tempos.

Do lado das montadoras e grandes sistemistas, desafios devem ser colocados aos players locais, porém com regras, contratos e compromissos de médio e longo prazo que permitam de forma transparente buscar funding para proceder adequadamente com as mudanças necessárias.

Do ponto vista de mercado, é importante notar que a indústria de máquinas fora-de-estrada deve continuar crescendo com maior previsibilidade devido a posição do agronegócio brasileiro no cenário global, assim como a necessidade de investimentos em infraestrutura e moradias que devem impulsionar o mercado de máquinas de construção, desde que haja condições favoráveis, como confiança necessária para receber investimentos privados, principalmente do exterior.

A crise da Covid-19 está trazendo ensinamentos sobre a importância da cooperação da sociedade que se adapta e se transforma para superar crises. Quiçá todos possam aproveitar estes ensinamentos para melhorar nossas empresas.

* Carlos Alberto Briganti, presidente do Grupo Engenho Consultoria e managing director da Power Systems Research América do Sul; Ricardo Vieira Santos, consultor; e Fabio Ferraresi, diretor do Grupo Engenho Consultoria e da Power Systems Research América do Sul.

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