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INOVAÇÃO | 20/02/2020
Ao debandar do Salão do Automóvel, marcas dão as costas ao principal, o público
Uma série de fabricantes de veículos começou 2020 com a simbólica decisão de não participar do Salão do Automóvel de São Paulo – justamente na edição em que o evento completa 60 anos de história. As razões para a debandada convergem para um alegado desequilíbrio na relação entre custo e benefício do evento. A questão é que, ao sair da mostra, as fabricantes e importadoras de veículos deixam de lado um componente essencial desta equação: o consumidor.

Em suma, as empresas reclamam que o investimento para expor é alto e, segundo algumas marcas, a relevância do evento vem encolhendo. Em um contexto em que todas as montadoras querem deixar de lado a imagem de fabricante de veículos para se enquadrar na caixinha de provedoras de mobilidade, estar no salão pode soar como um contrassenso.

É o que vem acontecendo em eventos como o alemão IAA, que vai deixar de acontecer em Frankfurt porque, de repente, o pavilhão ficou grande demais para o reduzido interesse do público: o número de visitantes minguou 32% entre a edição de 2017 e a de 2019, para 550 mil pessoas – quase metade do que o mesmo evento atraiu há cinco anos, quando o público chegou a 930 mil.

Já o Salão de Detroit sofre do mesmo mal. A partir deste ano o evento deixa de acontecer no gélido mês de janeiro para ser realizado em junho, quando a temperatura é mais alta na cidade. Assim, além de fugir do frio, a mostra também foge da concorrência com a CES – Consumer Electronics Show, que acontece no começo do ano e tem, cada vez mais, se consolidado como um espaço importante para discutir mobilidade.

O esforço da mostra de Detroit tenta reverter o encolhimento da audiência. No ano passado foram 724 mil visitantes, público 4,2% menor do que o de 2018.

EVENTOS GLOBAIS ENCOLHEM, MAS SALÃO DE SÃO PAULO ATRAI MAIS GENTE


Enquanto as tradicionais mostras europeia e norte-americana contabilizam redução na audiência ano após ano, o Salão do Automóvel de São Paulo segue com frequência crescente: o público aumentou 4,5% de 2016 a 2018, para 750 mil visitantes. Segundo a organização, a Reed Exhibitions Alcantara Machado, 99% de quem foi diz ter saído satisfeito da última edição. Nada mal. Pesquisa que fizemos em Automotive Business, em parceria com a Reed Exhibitions, com os visitantes do Salão mostrou que o evento ainda é um mundo de sonhos para os frequentadores e indicou que há interesse crescente em viver experiências ali. Além dos test-drives, as pessoas querem vivenciar o processo de desenvolvimento de um veículo, o design e encontrar soluções e simuladores de smart cities, por exemplo.

EM TEMPOS DE ATENÇÃO ESCASSA, EVENTO AINDA TEM IMPACTO RELEVANTE


O evento não se encerra nos limites do São Paulo Expo, pavilhão que abriga a mostra, e tem um enorme poder de atrair os holofotes para a indústria automotiva e as discussões em torno dela. O que, convenhamos, não é algo de se jogar fora em tempos de consumidores um tanto mais apáticos em relação ao carro.

A Reed Exhibitions calcula que a última edição do evento impactou 27 milhões de pessoas de alguma maneira, por meio das redes sociais, sites e matérias na imprensa. O portal da revista Quatro Rodas, por exemplo, registra aumento no número de acessos no período do evento. “A nossa audiência subiu 20% a 30% nos dias de imprensa da edição passada do Salão”, conta o editor, Leonardo Felix.

O mesmo acontece em outro portal especializado e na plataforma digital da editoria de carros de um dos maiores jornais brasileiros. Em Automotive Business os dias de Salão também são 30% mais movimentados em acesso.

DAR AS COSTAS AO PÚBLICO OU REINVENTAR O SALÃO DO AUTOMÓVEL?


Mesmo com a alta capacidade do evento de mobilizar o público, sete empresas já anunciaram que ficarão ausentes do maior Salão: General Motors, Hyundai, BMW/Mini, Kia, Toyota/Lexus. Como se não bastasse, Mitsubishi e Suzuki dizem que ainda estão estudando a participação, enquanto a Volkswagen aponta que só vai expor se o evento estiver disposto a mudar: “Queremos ir, mas não com este formato”, disse Pablo di Si, presidente da companhia no Brasil.

As sete marcas que não participaram da edição de 2018 do evento, Peugeot, Citroën, Jaguar/Land Rover, Volvo e JAC, também não confirmaram presença até agora.

O cenário passa longe de ser favorável e o mais preocupante é que a crise que o Salão do Automóvel enfrenta não é símbolo da transformação do setor automotivo, como muitas marcas que desistiram da mostra têm apontado. O emagrecimento do evento evidencia a incapacidade da nossa indústria de dialogar com o novo consumidor.

Enquanto nos outros mercados o interesse das pessoas em eventos do gênero diminuiu, no Brasil o Salão do Automóvel segue com milhares da fãs. O que faz mais sentido em um contexto como este: simplesmente deixar de participar do evento ou trabalhar para reinventá-lo?

Quanto as marcas estão dispostas a colocar em jogo para atrair novos públicos ao Salão? Há anos a mostra é criticada por seu ambiente masculinizado e, convenhamos, nem sempre amistoso às mulheres e à diversidade (como mostramos aqui). Por outro lado, poucas fabricantes de veículos fizeram movimentos para derrubar este estigma. Também foram raras as marcas que levaram ao evento nos últimos anos experiências e discussões efetivas sobre a tão falada nova mobilidade.

Assim, olhando daqui a debandada das empresas do Salão do Automóvel parece mais um sintoma de uma indústria com enorme dificuldade para colaborar, construir novas respostas e inovar, do que sinal de que as fabricantes de veículos estão dispostas a arregaçar as mangas e trabalhar para entregar soluções mais relevantes aos consumidores e à sociedade.

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