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Meio Ambiente | 04/02/2020
Mobilidade sustentável tem mais de um caminho
O Brasil atravessa uma acalorada discussão sobre a necessidade de reformas para voltar a crescer. Além da previdência, é preciso discutir e implementar outras mudanças, tais como a administrativa e a tributária, para gerar a segurança jurídica necessária a fim de destravar os investimentos e, consequentemente, o desenvolvimento sustentável.

Essa é a mesma situação em que se encontra a questão da mobilidade, com a diferença que as reformas são programas que já foram definidos e aprovados, mas que ainda carecem de definições importantes para deslanchar e trazer a tão esperada retomada no desenvolvimento de novos veículos e sistemas de tração.

O Proconve (Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores), o Rota 2030 e o RenovaBio são os planos mestres que, respectivamente, regulam as emissões de poluentes, a eficiência energética e a redução da emissão de gases de efeito estufa da matriz energética. Eles não se restringem só a isso, mas vamos aqui discutir esses aspectos.

Da mesma forma como ocorre com as reformas, é importante que o conjunto seja harmonizado, de forma que o resultado para a sociedade seja atingido equilibradamente, de forma sustentável, gerando a segurança necessária para que sejam feitos investimentos, lembrando que o conceito de sustentabilidade ultrapassa o cuidado com o meio ambiente e a saúde pública, incluindo as questões do desenvolvimento econômico e social.

O futuro da mobilidade no mundo hoje é fortemente influenciado pela revolução tecnológica gerada pela penetração cada vez maior dos veículos elétricos, com vultosos investimentos para a infraestrutura e a disponibilidade de eletricidade limpa.

Essa migração tem de ser feita respeitando as possibilidades econômicas e as necessidades de evolução do consumo de cada região e não para defender o interesse econômico daqueles que detêm essa tecnologia, como tem sido a tônica dessas discussões em todos os níveis, sem considerar o que é sustentável para cada povo.

Além disso, o tempo necessário para a efetiva redução dos gases de efeito estufa na atmosfera com os sucessivos atrasos no aumento da produção de veículos elétricos, estrangulada pela disponibilidade e custo das baterias, tem sido tratado como um problema menor e não é, o que põe em xeque toda a indústria automobilística.

Apesar de não ser uma clara unanimidade, por causa desses interesses já existe o reconhecimento de que, do ponto de vista das emissões de gases de efeito estufa, o que vale é considerar as emissões representadas pelo CO2 no chamado ciclo do poço à roda, mas isso ainda não é feito. Os métodos de controle, que hoje só contam uma parte da história, podem induzir a erros no direcionamento de investimentos.

A abordagem atual, que mede a emissão de CO2 só no tubo de escape do veículo, assim como na análise da eficiência energética e da geração de energia, chamada de tanque à roda, deveria ser modificada para o ciclo completo, o que iria mudar o peso das vantagens e desvantagens das várias alternativas.

Basta lembrar que uma parcela considerável da energia elétrica no mundo é e ainda será por muito tempo gerada a partir de combustíveis fósseis, o que reduz a eficiência final dos veículos elétricos à metade, emitindo CO2 e os mesmos tipos de poluentes de veículos a gasolina.

Some-se a isso a vantagem socioeconômica da mistura de biocombustíveis e dos combustíveis fósseis, que utiliza as reservas destes com uma utilização ambientalmente responsável em motores e veículos modernos. Isso gera desenvolvimento local distribuído e sustentável com empregos e formação profissional de qualidade.

Aí sim ajusta-se o foco para definir a melhor estratégia energética no Brasil, como foi ou está sendo feito em todos os países que já definiram suas rotas tecnológicas com base no desenvolvimento econômico local.

No entanto, esses países utilizam o conceito do tanque à roda misturando a medida da eficiência energética com o CO2 emitido pelo escapamento dos veículos e depois usam esse valor como representativo da emissão de gases de efeito estufa. Isso impede que se enxergue a renovabilidade dos biocombustíveis e zera a emissão dos veículos elétricos, criando uma enorme cortina de fumaça que não deixa a discussão migrar dos interesses econômicos ocultos para os fatos social e ambientalmente relevantes.

Essa metodologia só interessa àqueles que não dispõem do espectro de soluções disponíveis no Brasil e fazem da discussão ambiental um gancho para impor sua vantagem competitiva em certas tecnologias sem considerar a melhor composição de todas as alternativas, como é feito no RenovaBio, estruturado na intensidade de carbono dos energéticos medidos em todo o ciclo de vida, sejam eles combustíveis líquidos, gases ou energia elétrica, e tem a capacidade de compará-las em bases iguais.

Fazendo com que o Rota 2030 e o Proconve, que hoje adotam o tanque à roda, sejam também baseados no ciclo completo, os três programas servirão para que as decisões sobre a mobilidade sejam sustentáveis, sempre ponderando a experiência internacional, mas preservando a vanguarda brasileira com os biocombustíveis e combinando-os da forma mais inteligente com a eletrificação, respeitando as características da nossa matriz energética, o grau tecnológico do parque industrial brasileiro e o tamanho e potencial de compra do mercado.

Entretanto, essas alterações levam tempo para ser estudadas e implementadas e alguma coisa precisa ser feita imediatamente. Como os veículos elétricos não têm emissões de gases de escape, a falta de uma clara e imediata demonstração do interesse nacional de preservar a utilização dos biocombustíveis, a utilização de métodos e limites internacionais pode levar à disponibilidade local apenas de alternativas internacionais de eletrificação, o que vai afetar a produção da indústria automotiva e os empregos, a necessidade de investimentos em infraestrutura e comprometer o RenovaBio.

O Proconve tem novos limites e métodos de ensaio baseados na experiência internacional, que neste momento se preocupa em evitar dispositivos que, instalados em motores a diesel, ludibriaram a legislação, foco diferente do nosso neste momento, e ainda não têm uma adaptação local definida. Isso vai alterar a calibração dos motores e outros itens dos sistemas veiculares com os combustíveis locais, o que pode influir no atendimento ao Rota 2030.

Como esse programa ainda não tem limite definido para 2027, o tempo de desenvolvimento das tecnologias e da preparação da etapa L8 do Proconve em 2025 e do Rota 2030 em 2027 faz com que a rota tecnológica tenha de ser decidida até 2022. Portanto, é importantíssimo que a análise conjunta e completa das alternativas de mobilidade sustentável dos objetivos e metodologia futura seja feita antes de 2022.

Sem a clareza da possibilidade de cumprir esses programas com os biocombustíveis, a situação hoje equivale a optar pela eletrificação com baterias em desenvolvimento no exterior, com todas as consequências discutidas acima, além de escamotear a engenharia nacional, deixando de lado alternativas locais, mas que podem também ser usadas em todos os países com condições similares ao Brasil, o que representaria a viabilização de uma segunda via internacional para a mobilidade sustentável.

Ricardo Abreu, consultor
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