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INOVAÇÃO | 10/12/2018
Você, suas escolhas, o Rota 2030 e o futuro de sua empresa
Vivemos no Brasil um histórico momento de “tudo ou nada”. No campo da política, ou as reformas passam ou o governo perde a força. Na área da economia e das tecnologias, bem como nas múltiplas e diferentes dimensões que impactam nossas vidas, estamos diante de escolhas que podem significar vencer ou morrer. No que se refere aos negócios, e em especial à cadeia industrial automotiva, ou voltamos a dar lucro ou fechamos as portas. Ou conquistamos de volta nossa competitividade ou perderemos a capacidade de jogar no desafiador contexto internacional e de mercados globais, em especial no que se refere às autopeças.

Uma dessas decisões estratégicas que as empresas do setor precisam tomar agora é a de habilitar-se ou não ao programa de fomento à inovação Rota 2030. Não faz nenhum sentido pensar que inovar seja opcional; mesmo assim, ainda pairam dúvidas sobre o programa. Prova disso é que, no dia 5 de dezembro, coordenamos, em conjunto com a Câmara Brasil-Alemanha (AHK), um evento no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) justamente para debater o assunto. Casa cheia, com mais de 90 participantes e grande demonstração de interesse; ao mesmo tempo, um assustador desconhecimento por parte dos dirigentes sobre os detalhes do Rota 2030 e como impactará suas estratégias e sua capacidade de inovar e, portanto, de seguir competindo.

De forma muito resumida, os debates giraram em torno da percepção de que o Rota 2030 nos empurra de vez a assumirmos protagonismo no mundo da inovação, extraindo dele o máximo potencial. As principais conclusões do dia foram:

1) É hora de as áreas técnicas (engenharia e inovação) se empoderarem e gerenciarem o programa. - Não podemos relegar apenas às áreas fiscal e aos controllers a condução das atividades conexas ao Rota 2030. As engenharias terão de tomar imediatamente para si a condução do programa para que ele e as inovações dele derivadas se tornem, de verdade, uma poderosa alavanca de competitividade. E não mais uma das desagradáveis obrigações fiscais e de prestação de contas.

2) Há de se implantar uma estratégia que combine as diferentes oportunidades. - Somente serão competitivas as empresas que usarem de maneira combinada e maximizada as várias ferramentas disponíveis de fomento à inovação. Antes, bastava comprar barato, produzir com baixo custo e vender bem. Atualmente, isso deixou de ser suficiente. Será preciso gerenciar todas as receitas e despesas possíveis e o uso inteligente dos incentivos terá um papel central na gestão e nos resultados. São muitas as possibilidades para irrigar com recursos as engenharias e a inovação e não é trivial combiná-las (Lei do Bem, bolsas, financiamentos subsidiados etc.). O total de subsídios para quem fizer inovação pode chegar a cerca de 70% dos investimentos.

3) Dá muito trabalho e requer equipes dedicadas e especializadas. - Os quadros das empresas do setor já deixaram de ser enxutos há muito tempo. Estão desidratados. Mesmo assim, para usar adequadamente os incentivos a empresa terá de destacar pessoas específicas e treiná-las para fazer um bom trabalho. Mais para a frente verão que é um investimento altamente rentável, mas é difícil convencer a todos da necessidade de investir e ampliar custos com pessoal em um momento de tanta incerteza. Como resolver? Avaliamos que em uma montadora pequena terão que ser avaliados, classificados e gerenciados cerca de 25 mil lançamentos contábeis e cada um dos correspondentes projetos. É muito trabalho e será preciso contar com equipes dedicadas, nem que sejam externas (consultores ou terceiros especializados).

4) Será preciso escolher entre uma estratégia otimizada ou uma punhalada na competitividade. - O Rota obriga os dirigentes a pensar estrategicamente sobre incentivos e competitividade e gerenciá-los pensando mais em longo prazo. Algumas poucas empresas no Brasil fazem uso otimizado de incentivos e são sempre as mesmas: Embraer, Petrobras e Natura, entre outras. Não cito nenhuma do setor para não parecer injusto, mas sabemos que nossa indústria sempre fez uso moderado, e de certa forma passivo, dessas oportunidades. Chegou a hora de mudar isso e o 2030 é o caminho. Aqui, mais uma vez, é tudo ou nada.

5) Chega de desculpas: temos enfim uma política de longo prazo. - O que vem sendo divulgado sobre o Rota 2030 é apenas uma terça parte da estratégia e da política industrial que foi criada. O programa prevê um horizonte de trabalho de 15 anos e põe fim às desculpas de falta de previsibilidade e de segurança para fazer investimentos. Temos finalmente uma base de política industrial para o setor e, sendo assim, desenvolver e buscar soluções tecnológicas avançadas será de sua responsabilidade.

Enfim, chegou a hora de arregaçar as mangas e mergulhar no trabalho empenhando-se para fazer a inovação acontecer. A transformá-la de fato em uma alavanca estratégica de competitividade. Ou, alternativamente, o nada: preparar-se para contar aos netos a história de que foi você o último a deixar a fábrica, trancar os portões. Como centenas de vovôs da Kodak, Blockbuster, Nokia e de muitas outras empresas devem estar contando a seus netos uma hora dessas.

*Valter Pieracciani é sócio-diretor da Pieracciani Desenvolvimento de Empresas, consultoria especializada em inovação.
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