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AUTOINFORME | 15/12/2017
Songdo, a cidade do presente


“Por favor, um café e uma água.” Com essa frase iniciamos nosso primeiro contato com Songdo, a cidade inteligente que a Coreia do Sul está construindo a 65 quilômetros da capital Seul, para mostrar ao mundo que é possível tornar a vida nos centros urbanos mais saudável e prazerosa.

Prevista para abrigar 200 mil habitantes, Songdo tem ainda 90 mil, mas sua infraestrutura está montada, não se vê resquícios de construção. A cidade do futuro já faz parte do presente da população; só falta crescer; as pessoas já usufruem da tecnologia e de todas as propostas que os arquitetos das CIs oferecem para as novas gerações.

Segundo Lee Jong-Cheol, comissário da Zona Econômica Livre de Incheon, área onde está sendo construída Songdo, “construir uma cidade e sua tecnologia ao mesmo tempo é rentável e eficiente; permite que você construa a rede ideal de informação e comunicação”.

A garçonete do café onde paramos, junto a um posto de combustível, não entendeu imediatamente o pedido:
– Água?
– Sim, água. Água.

Então a moça indicou com a mão os jarros de água nas mesas do salão, acompanhados de copos de vidro, não descartáveis, disponíveis aos clientes.



Começou ali a inteligência da cidade: água, só a granel, o que reduz o impacto ambiental dos milhares, milhões, bilhões de toneladas de plástico que são descartados na natureza, ou, quando muito, recolhidos e reciclados para aproveitamento do material em produtos de qualidade inferior.

Songdo praticamente eliminou a garrafa pet de seu cotidiano e com isso deixou de produzir uma montanha de resíduos, reduzindo a necessidade de aterros sanitários e economizando matéria prima proveniente do petróleo, que é material finito.

Nem todas as embalagens foram eliminadas. Muitas contêm um chip eletrônico que é acionado na compra, no supermercado. Latas de refrigerantes, garrafas de bebidas possuem etiquetas eletrônicas que são monitoradas: ao serem descartadas de forma ecologicamente correta, o usuário é bonificado com descontos nos impostos.

Não há caminhões de lixo circulando nas ruas. Os resíduos domésticos são sugados da cozinha das casas e levados para centros de processamento, por um sistema de dutos subterrâneos. São classificados, tratados, mandados para reciclagem ou destinados à produção de energia.



Songdo foi planejada em torno de um parque central, de forma que os moradores possam circular sempre por área verde. 40% da cidade são de área verde. Tem os recursos da cidade grande e o clima do interior: as pessoas circulam com segurança, como se estivessem no quintal de casa. Flagramos um casal de jovens dormindo em pleno banco da praça: bolsa dela de um lado, computador dele do outro. Total displicência.

Songdo é exemplo de como se deve organizar a vida urbana, para que ela atenda às necessidades de quem reclama das mazelas da cidade e da falta de oportunidade do campo.

A cidade incorpora as mais avançadas tecnologias de construção, urbanismo, planejamento, meio ambiente, mobilidade e conectividade. É controlada por sensores que monitoram tudo: a temperatura ambiente, o consumo de energia, o controle do lixo, o fluxo de tráfego.

Uma rede digital envolve a cidade e conecta casas, escritórios, escolas, comércio, através de vídeo, permitindo ao cidadão uma comunicação on-line 24 horas com o mundo e evitando deslocamentos desnecessários. A internet de alta velocidade está em toda parte. O jornalista Antonio Meira Junior, meu parceiro na visita a Songdo ao lado da assessora Thais Nunes, da Hyundai Brasil, usou o celular para buscar informação da cidade e se espantou com a velocidade da internet: 154 megas por segundo: a tecnologia, e, no caso, a internet pública de banda larga, é mandatária na construção de uma cidade sustentável.



Os edifícios captam a água da chuva, são dotados de painéis que produzem energia solar e revestidos de forma que reduzem a penetração de calor no interior, diminuindo o consumo do ar-condicionado.

A maioria dos veículos que circulam na cidade ainda é movida a combustão, mas na área central os carros não emitem gás carbônico: são elétricos, ônibus e táxis aquáticos, bicicleta, ciclomotores coletivos, patinetes.

Mas é o transporte coletivo o maior responsável pela mobilidade. Songdo tem uma ampla rede de ônibus, bonde e metrô, movidos a eletricidade e controlados eletronicamente por uma central que, através de sensores, analisa a presença de usuários e determina a intensidade do transporte, o que contribui para a economia de energia elétrica e reduz o trânsito: o usuário é avisado quando seu ônibus está para chegar.

Songdo é referência ao que se chama de Cidade Inteligente, a Smart City. É o indicativo do que deverá ser a cidade do futuro. Pelo menos a cidade inteligente do futuro.

A CONSTRUÇÃO DO SONHO

Cidade Inteligente é aquela que usa a tecnologia para monitorar e integrar a estrutura do espaço, o que inclui administração, educação, saúde, segurança, edificação e transporte. Para Ronaldo Lemos, da Blokchan, Cidades Inteligentes e Democracia, o monitoramento dos serviços é fundamental para que possamos construir cidades mais amigáveis. “Com monitoramento – disse o especialista – você tem total controle e pode fazer um investimento público mais racional.”

Ele deu o exemplo do Rio de Janeiro que tem 1,5 milhão de pessoas morando em lugares que não estão no mapa. Com a tecnologia de mapeamento da cidade empregada pelo Google foi possível identificar essa população e os equipamentos públicos, que antes eram ignorados pelo poder público, como as favelas, as comunidades e até bares, restaurantes, comércio, escolas, tudo usando smartphone.

“Estar no mapa é requisito para receber serviços públicos, por isso a tecnologia e os dados são fundamentais para a construção das cidades do futuro”, ensinou.

Ele lembra, no entanto, que não bastam tecnologias; é preciso o resgate da cidadania, a confiança nos gestores públicos, o que determina o sentimento de pressentimento do cidadão, pois ele contribui porque sente que está contribuindo para ele mesmo, que as coisas da cidade lhe pertencem.

Com 100 mil quilômetros quadrados de território (o que lhe coube com a divisão do país promovido pelos EUA e pela então União Soviética, com o fim da Segunda Guerra), a Coreia do Sul, com seus 51 milhões de habitantes, tem um território densamente povoado. Por isso, construir uma cidade do zero só foi possível com o aterramento de uma parte do Mar Amarelo, que banha o Oeste da península coreana. Foi aterrada uma área de 1.500 hectares, onde hoje floresce a cidade que vai ficar pronta somente em 2022, para abrigar uma população de 200 mil pessoas. Pelo menos 400 edifícios – entre eles alguns arranha-céus, como o maior da Coreia – já estão prontos e habitados pela população que já chega a 90 mil pessoas ou abrigando escritórios e comércio que atraem outras 50 mil pessoas de outras cidades todos os dias.

Zayong Koo, vice-presidente de relações públicas do Hyundai Motor Group, confirmou a participação da empresa nos projetos das cidades inteligentes na Coreia, mas não revelou qual é exatamente a contribuição em Songdo. A Hyundai, no entanto, está investindo pesado em alternativas de mobilidade sustentável. O Ioniq é a proposta de carro elétrico que reúne as três modalidades: o elétrico puro, o hibrido e o híbrido com tomada de força. O carro foi visto rodando em Songdo, em nossa visita.

A montadora, no entanto, faz sua maior aposta no carro a célula de combustível, que já é produzido em série desde 2013 e tem o ousado programa zero acidente, que prevê a ampliação da segurança ativa para ocupantes do carro e os pedestres, gerenciamento de risco em tempo real e monitoramente se serviço de emergência.

Questionado se o compartilhamento dos veículos (formato estimulado pelas CIs) não tornaria o carro uma commodity, Zayong Koo disse que, de fato, é um desafio construir automóveis para as novas gerações, que têm uma relação diferente com os carros: “A tendência é do uso comum dos veículos, mas o desafio é fazer a diferença mesmo diante de um comportamento do consumidor. Porque mesmo com o compartilhamento, as pessoas vão fazer suas escolhas”.

VIVER DA CIDADE

Metade dos 7 bilhões de habitantes do planeta vive em conglomerados urbanos e a tendência é que cada vez mais as pessoas sejam atraídas pelo convívio nas cidades. Estima-se que em 2050, isto é, em pouco mais de 30 anos, três de cada quatro pessoas estarão vivendo em cidades, ou seja, 6,75 bilhões, dos 9 bilhões de habitantes da Terra naquele ano. Será uma superconcentração de pessoas, que viverão amontoadas, uma vez que as cidades ocupam menos de 2% de toda a área do planeta.

Portanto, é preciso preparar as cidades para essa situação, caso contrário a humanidade será levada ao caos, uma vez que hoje já é quase uma tragédia a vida em algumas dos grandes conglomerados urbanos. É preciso criar novas formas de administrar as cidades.

Cidades como Mombai, Calcutá, Pequim e São Paulo atraem cada vez mais pessoas, mas não oferecem uma vida de qualidade. O desafio é fazer com que as pessoas possam viver nos centros urbanos, mas desfrutar dos recursos que lhe garantam uma vida tranquila. Um desafio gigantesco, pois o mundo hoje tem mais de 500 cidades com grande concentração populacional: são 442 cidades com mais de 1 milhão de habitantes. Há menos de dois séculos, apenas três cidades – Londres, Tóquio e Pequim – tinham esse tamanho.

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Este artigo foi publicado originalmente na Agência Autoinforme
joelleite@autoinforme.com.br
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