home not�cias an�lise quem � quem ABTV

acesse aqui a versão padrão

Negócios | 20/01/2017
Big 4 perderam fatia de 25% do mercado em 10 anos
Quem viveu as décadas de 60 e 70 no Brasil deve se lembrar que o setor automotivo era composto por três marcas: Volkswagen, Chevrolet e Ford. Em 1976 chegou a Fiat, quarta grande montadora a se instalar localmente. A partir deste momento ficou estabelecido um mercado fechado, majoritariamente dominado pelas quatro montadoras no País (as Big Four, uma alusão às Big Three norte-americanas GM, Ford e Chrysler). Foi assim até o início dos anos 2000, quando novas marcar começaram a ganhar espaço.

-Veja aqui estudo da MA8 sobre o valor do market share no mercado brasileiro

Ainda assim, este grupo deteve mais de 80% do mercado até 2007 quando, em um movimento inevitável e esperado, começou a perder espaço para outras montadoras que chegavam ao Brasil. O que surpreende, no entanto, é que nos últimos 10 anos, de 2007 a 2016, as Big 4 entregaram o equivalente a 1/4 do mercado, cedendo em curto período de tempo boa parte do patrimônio conquistado em mais de 50 anos.



Com a expansão econômica do país na 2ª metade da década passada e a entrada no mercado de uma nova classe consumidora, as marcas novas foram ganhando terreno no setor automotivo. Este movimento foi motivado pela competência destas empresas, tecnologia, design e também pelo fato de serem novidade. O consumidor passou a ter alternativas satisfatórias e possíveis. Não vai aqui nenhuma crítica à postura das Big 4 nesse período, afinal são apenas 100 pontos percentuais no mercado para acomodar todos os competidores. De qualquer forma, vale a reflexão sobre o significado da perda de 1 ponto de market share. As quatro marcas, juntas, entregaram 25 pontos percentuais de mercado em dez anos.

Entre 2007 e 2016 as Big 4 venderam 20,8 milhões de automóveis e comerciais leves no Brasil, enquanto o mercado total no País contabilizou 29,8 milhões de unidades no mesmo período. Hipoteticamente, se VW, Chevrolet, Ford e Fiat não tivessem perdido espaço nesse período, teriam vendido 24,1 milhões de veículos. Ou seja, nos últimos dez anos as quatro grandes deixaram de vender 3,3 milhões.

Desse volume cedido, 90% foram conquistados por Toyota, Honda, Hyundai e Renault, que juntas já respondem por um terço do mercado nacional. O volume restante foi dividido entre outras 30 marcas de veículos presentes no Brasil. Diante disso, não é precipitado afirmar que, até o fim desta década, uma nova ordem estará consolidada no setor automotivo brasileiro com as Big 8.

O VALOR DO MARKET SHARE

Com tantas mudanças no mercado nacional, é natural perguntar quanto vale 1 ponto de market share para uma montadora consolidada no País. Em recente estudo na MA8 Consulting concluímos que 1% de participação no mercado automotivo representa aproximadamente US$ 350 milhões em geração de negócios sustentáveis para a cadeia exclusiva (montadora, rede de concessionárias, pós-venda estendido, serviços financeiros e recompra retida). Afirmar que as Big 4 perderam em cadeia quase US$ 9 bilhões pela queda em participação de mercado no Brasil nos últimos anos não é heresia. Contudo, ainda não podemos afirmar o mesmo valor como ganho das marcas que ascenderam, pois, o tamanho de seus parques circulantes e fundo de comércio não se comparam com o das Big 4.

Outro fator a ser analisado isoladamente é o efeito desses movimentos de perda de participação no mercado sobre as redes de concessionárias. Neste caso a ferida é maior e vai além do aspecto financeiro. Somente nos últimos dois anos foram fechadas mais de mil revendas de veículos no Brasil (refiro-me aqui aquelas concessionárias significativas). Além dos potenciais passivos legais para as fabricantes, será muito difícil convencer bons empresários do setor da distribuição a reabrir instalações no futuro ou até mesmo expandir os negócios. Não há uma fila de bons investidores, com vocação, batendo nas portas das montadoras e é possível que, em futuro não muito distante, a necessidade obrigue o setor automotivo a criar novas formas de distribuição e prestação de serviços, em benefício de suas próprias concessionárias e da representação de mercado das marcas.

Há muitos anos elaboro artigos e estudos sobre a necessidade de cuidar das redes de concessionárias e a importância de construir relacionamento profissional, transparente e diplomático entre o fabricante e o revendedor, evitando conflitos e relações belicosas. Algumas marcas que cresceram no mercado em anos recentes aplicaram bem esse conceito, em especial as japonesas, que conseguiram que seus parceiros distribuidores mantivessem os maiores índices de motivação e rentabilidade no setor, com políticas comerciais interessantes. Nada motiva mais do que o retorno financeiro e a confiança, mesmo em um negócio.
[ voltar ]