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INOVAÇÃO | 10/06/2016
Lições de um Inovar-Auto que poderia ter dado certo
Estamos perto de 2017, último ano do Inovar-Auto. O programa que ofereceu uma grande oportunidade para que o Brasil acelerasse efetivamente seu estágio de desenvolvimento e inovação no setor automotivo. Tudo indica, no entanto, que o regime automotivo chegará ao fim envolto na melancolia do “podia ter sido, mas não foi”. E talvez não tenha uma segunda chance: a julgar pelos sinais que o governo interino vem emitindo, programas setoriais não andam bem cotados; pior ainda quando se baseiam em renúncia fiscal. São mínimas, portanto, as esperanças de um Inovar-Auto II.

Poderíamos – deveríamos – ter feito muito mais. O investimento mínimo em P&D&E&I (Pesquisa, Desenvolvimento, Engenharia e Inovação) previsto pelo programa girava em torno de R$ 1,4 bilhão por ano. Chega-se a esse número considerando a receita operacional líquida anual do setor em 2014, de R$ 129 bilhõess, dos quais 0,3% caberiam a P&D e 0,75% à engenharia. A inovação de verdade demorou a decolar e esses limites, aparentemente pequenos, foram atingidos com dificuldade por muitas das empresas que se dizem inovadoras.

É pouco diante dos desafios que temos pela frente em qualidade, produtividade e confiabilidade, sem falar no impacto ambiental em toda a cadeia da mobilidade. Temas para se investir em P&D no Brasil não faltam. Se compararmos com o outro extremo, então, a diferença tende a ser astronômica. De acordo com o VDA, sigla para a German Association of the Automotive Business, o investimento em P&D Auto na Alemanha em 2014 foi de € 19,7 bilhões! Perdemos de 56 a 1. Bem mais do que no futebol.

Outra nuvem cinzenta que paira sobre o programa é o panorama de derrota diante das representações movidas por outros países junto à OMC. Elas progrediram e vêm evidenciando que iniciativas como o Inovar-Auto podem ser vistas como medidas de proteção de mercado. Estamos, portanto, nos aproximando de um xeque-mate.

A maioria dos especialistas em direito internacional que ouvimos considera que perderemos nos tribunais; para eles, a melhor saída seria mesmo propor e realizar um acordo. Caminhar para uma solução que nos permitisse redução nas penalidades que serão certamente impostas ao Brasil e, ainda, negociar um prazo de adequação para se recompor. A derrota brasileira nos tribunais internacionais significaria que, quando houver retomada do mercado, os novos compradores de veículos serão disputados com montadoras recém-chegadas, em especial indústrias asiáticas com preço e qualidade extremamente competitivos.

A indústria brasileira poderia ter se tornado um polo automobilístico mais forte globalmente caso tivesse investido em engenharia, P&D e inovação competitiva. Infelizmente, prevaleceu a resistência às transformações. Claro, houve e há exceções, mas é possível contar nos dedos os acordos de cooperação e os projetos estruturados com o objetivo de extrair o máximo do programa.

As indústrias de autopeças, nas quais nasce boa parte da competitividade do setor, olharam criticamente as mudanças e blindaram-se em vez de desenvolverem projetos conjuntos, financiados pelas montadoras, como o programa permite. Ficaram sonhando com um Inovar-Peças que nunca fez o menor sentido. Nem para os técnicos nem para os especialistas do governo que conceberam - e conceberam bem - um programa de competitividade para a cadeia completa.

As importadoras optaram por depositar os recursos que poderiam financiar projetos de competitividade e inovação no misterioso Fundo Nacional para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o FNDCT. Um fundo do governo sobre o qual ninguém tem qualquer controle.

Não se sabe sequer que destino é dado às centenas de milhões que para ele afluíram, configurando, inclusive, um problema no campo de compliance para essas empresas. Isso em um país no qual um número enorme de projetos inteligentes e de alto impacto na competitividade permanecem engavetados por falta de dinheiro em instituições de pesquisa, universidades e startups.

Sinto profundamente que um dos setores industriais mais importantes do país tenha perdido, mais uma vez, o bonde. Queria que fôssemos mais competitivos. Que as empresas que atuam no setor – todas elas – despertassem agora como quem perdeu a hora e corressem para implantar ações que gerem resultados no campo da competitividade. Que conseguissem não ser engolidas em pleno sono por dragões vindos do outro lado do mundo.
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