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AB | 12/03/2009
'Voo de galinha' outra vez? - Por Eduardo Pocetti*
Recebemos com grande apreensão os dados do IBGE que apontam queda de 3,6% no PIB do quarto trimestre de 2008 em relação aos três meses imediatamente anteriores. Trata-se da comprovação de que a economia brasileira foi duramente afetada pela crise financeira internacional.

A economia globalizada mostra, assim, sua pior face, que nos remete ao abraço do afogado: na dificuldade e no desespero, as grandes economias internacionais, mais afetadas pela crise, arrastam para o fundo os países como o Brasil, que tentam providenciar soluções não só para si, mas também para que haja reflexos entre as nações desenvolvidas.

Ao final, há uma tendência de que se repita um triste fenômeno bastante conhecido entre os brasileiros: o "voo de galinha" no crescimento da economia. Depois de quatro anos de avanço expressivo e sustentado (5,7% em 2004; 3,2% em 2005; 3,8% em 2006; e 5,7% em 2007), a economia brasileira começou a se abater mais uma vez nos últimos três meses de 2008. Mesmo com este "cruzado no queixo" equivalente a um recuo de 3,6% naquele período, no acumulado do ano o PIB brasileiro cresceu 5,1%, patamar respeitável neste momento de instabilidade.

Apenas como referência, podemos citar que a economia do país já chegou a crescer 14% em 1973, auge do milagre econômico durante a ditadura militar. Por outro lado, o PIB nacional recuou 4,3% em 1981 (como reflexo da segunda crise do petróleo, alta internacional dos juros e elevada inflação no Brasil) e em 1990 (devido aos efeitos do Plano Collor).

Tomando, porém, como referência os últimos 25 anos, começamos em 1983 com um recuo de 2,9% na economia, devido ainda aos efeitos recessivos do início da década, de uma maxidesvalorização de 30% do cruzeiro (moeda da época) em relação ao dólar, da inflação que ultrapassou os 200% no ano e da desindexação de parte das correções salariais, o que deprimiu a economia. Seguem-se quatro anos de bonança, com crescimentos de 5,4% em 1984 (em razão do forte crescimento dos Estados Unidos); de 7,8% em 1985 (ainda reflexo da bonança externa); de 7,5% em 1986 e de 3,5% em 1987, estes dois últimos como efeito do Plano Cruzado implantado pelo governo do presidente José Sarney.

Em 1988, o país volta a registrar queda, agora de 0,1%, como efeito do fracasso do Plano Cruzado e da moratória da dívida externa decretada no início de 1987. Há uma retomada em 1989, com crescimento de 3,2% do PIB após adoção do Plano Verão, mas a hiperinflação não cedeu, tendo ultrapassado os 70% no mês de fevereiro de 1990. É quando o Plano Collor derruba a economia nacional (queda de 4,3% no PIB), efeito que se prolongou, ainda, por mais dois anos, com avanço de apenas 1% em 1991 e recuo de 0,5% em 1992.

Após a queda de Fernando Collor, substituído por Itamar Franco na Presidência da República ainda em 1992, a gestação e devida implantação do Plano Real traz resultados bastante positivos aos anos de 1993 (como um PIB 4,9% maior), de 1994 (+5,9%) e de 1995 (+4,2%). Já em 1996, há uma desaceleração mais pronunciada (reflexo dos efeitos da crise do México sobre o Brasil), com avanço de apenas 2,2% na economia nacional. A seguir, registra-se leve retomada em 1997 (+3,4%), ano em que estourou a crise asiática.

A crise asiática mexeu com toda a economia global e acabou afetando consideravelmente os resultados econômicos brasileiros em 1998, quando o PIB ficou estagnado em relação a 1997. Já no início de 1999, o Brasil vive sua crise cambial, o que segura seu desempenho (avanço de apenas 0,3% do PIB). Com um crescimento de tímido 0,3% em dois anos, a economia nacional ganha um bom respiro em 2000, com alta de 4,3%, impulsionada pelo crescimento do consumo da população. Este respiro é um dos exemplos lapidares do efeito "voo de galinha".

Logo em 2001, o país é atingido por um novo choque: o da crise energética. O plano de redução do consumo de energia do governo Fernando Henrique Cardoso afeta profundamente a produção e o consumo nacionais, e o ano termina com crescimento de limitado 1,3% no PIB.

Em 2002, mesmo com a melhora em relação à questão energética, dois fatores limitam o avanço da economia do país a apenas 2,7% no ano: a crise argentina e a instabilidade provocada pelo processo eleitoral, com a escolha de Luiz Inácio Lula da Silva como presidente da República. Este último fator estendeu seus efeitos ao longo de todo o ano de 2003, com empresas e agentes econômicos segurando investimentos temerosos em relação aos rumos do país com o novo governo. O PIB, então, teve um pequeno avanço de 1,1%.

Diante da comprovação pelo governo federal de que as regras econômicas então vigentes no país não seriam alteradas, os investimentos voltam com força, refletindo-se nos números de crescimento entre 2004 e 2008, já citados neste texto.

O temor agora é que os efeitos da crise internacional derrubem mais uma vez a economia nacional em 2009. O próprio governo federal tem revisto suas projeções de crescimento para o ano. Agentes do mercado financeiro, segundo recente pesquisa do Banco Central, já esperam na média que o PIB nacional tenha um parco avanço de 1,2% até o final de dezembro.

Se tais previsões se confirmarem, voltaremos a ouvir teorias sobre os "voos de galinha" da economia brasileira. O desafio que permanece relaciona-se ao poder de reação do mercado nacional e à perspectiva de reversão desta tendência. Há elementos que permitem alimentar algum otimismo: a indústria automobilística tem registrado crescimento nas vendas; a inflação está sob controle e tende a cair, permitindo que os juros sigam a trajetória de baixa dos últimos meses; os governos municipais, estaduais e federal continuam adotando medidas para estimular a economia, sendo que, em breve, será divulgado um pacote de incentivos para o setor de construção civil; e, em reunião na Suíça, representantes dos principais bancos centrais do mundo disseram ter detectado fatores que apontam para o início da reversão da atual crise internacional.

É importante perceber que a economia mundial não será mais a mesma a depois desta crise. Os patamares econômicos estarão deslocados para baixo, as exigências para a concessão de crédito ganharão em severidade, o dinheiro disponível será mais escasso, a concorrência entre países tende a crescer e a forma como administrar as corporações mudará consideravelmente. Por isso, é essencial que as empresas canalizem desde já recursos e esforços para valorizar qualidade, produtividade, gestão, governança corporativa e redução de custos e riscos, além de promover negociações produtivas com fornecedores, clientes e agentes de crédito. Claro é que o crescimento brasileiro depende de inúmeros fatores e de variados agentes dispersos por todos os segmentos que envolvem a economia de nosso planeta. No entanto, se cada um fizer a sua parte, a perspectiva de reversão do indesejado efeito "voo de galinha" deixa de ser uma simples quimera.

*Eduardo Pocetti é CEO da BDO Trevisan.
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