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Powertrain | 13/03/2015
Esopo aplicado à causa diesel
As últimas semanas ficaram marcadas por eventos mais do que relevantes ligados ao universo diesel, mas que passaram meio que despercebidos pela mídia no Brasil. No fim do ano passado, na França, a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, veio a público dizer ter sido um erro a opção de privilegiar a motorização diesel naquele país. Ao mesmo tempo, disse que em breve seria anunciado um plano visando criar na cidade, a exemplo do que já ocorre em outros países, uma zona de baixa poluição, onde os carros a diesel não teriam permissão para circular.

A reação foi imediata. A França é um país com tradição diesel e centro de excelência na aplicação de tecnologias avançadas. O CCFA, que é o Comitê Francês de Montadoras de Automóveis, e, portanto, representante de todos os tipos de veículos, condenou a posição da Sra. Hidalgo e cobrou da executiva ações baseadas em critérios mais objetivos. Indicou ainda que a renovação da frota da cidade traria benefícios consistentes para a qualidade do ar. Ou seja, ao não se distinguir o novo veículo do velho, atacando simplesmente o diesel, desprezando-se todas as conquistas recentes para a redução nas emissões, o que a presidente da câmara parisiense estava fazendo era jogar no lixo o plano de redução de emissões do país, que vem baixando gradativamente os limites de emissões para os veículos. Se todos vêm cumprindo, por que restringir a circulação apenas dos diesel?

A crítica surtiu efeito. Quando, afinal, o plano foi divulgado no início de fevereiro, viu-se que os carros a gasolina também passaram a ser objeto de atenção. Na verdade, os veículos velhos a combustão serão os que passarão a ter problemas para circular em algumas áreas de Paris. A restrição começa com ônibus e caminhões já em 2015; em 2016 atingirá os carros de passeio (todos) que foram produzidos antes de 1997. O carro diesel moderno, com filtro de partículas, não terá qualquer restrição de circulação, inclusive a partir de 2020, quando as regras serão mais rigorosas.

O novo anúncio (e oficial) foi recebido de maneira positiva pelo CCFA, que elogiou a nova posição para a cidade, uma vez que adotou as principais linhas sugeridas em sua manifestação: restrição aos veículos velhos e reconhecimento de que os avanços tecnológicos, notadamente os filtros de partículas, “limparam” o motor diesel. Seus efeitos ainda não estavam se fazendo sentir na cidade, pois foram implementados apenas em 2011. Trata-se, portanto, de um plano com chances reais de êxito por se fundamentar em fatos conhecidos e aproveitamento das mais recentes conquistas tecnológicas.

Situações como essa remetem à fábula de Esopo: o lobo (para justificar o sacrifício da ovelha para saciar a sua fome) disse que a ovelha poluía o rio onde ele bebia água. “Mas como, se estou abaixo de você?” retrucou a ovelha. “Bem, se não foi você, foi seu pai, sua mãe ou seu avô.” E devorou a ovelha. O diesel goza de evidente má reputação entre os políticos e se torna alvo fácil para as autoridades: “a cidade está poluída? Precisamos restringir o diesel!”.

O que está faltando falar para esses tomadores de decisão é que o diesel poluidor (para as exigências ambientais de hoje) pode ter sido o pai, a mãe ou o avô dos motores modernos, mas, definitivamente, não são os atuais. E há evidências disso.

No mês de janeiro, nos Estados Unidos, o HEI (Health Effects Institute), instituto de grande reputação científica, divulgou o trabalho Advanced Collaborative Emissions Study (ACES), que avaliou os efeitos dos gases provenientes dos modernos veículos diesel (comerciais) sobre a saúde, sobretudo seu potencial carcinogênico. O trabalho foi conduzido ao longo de anos com ratos de laboratório, que ficaram expostos 80 horas/semana, durante trinta meses, às emissões de um moderno caminhão leve a diesel. Ao final, não foram encontradas evidências de que a exposição às emissões gasosas dos modernos motores a diesel traga aumento no risco de desenvolvimento de câncer no pulmão ou alterações importantes na saúde. Essa conclusão se opõe à posição da OMS, que classifica o diesel como cancerígeno, graças a estudo realizado sob condições extremas de exposição (confinamento em minas), utilizando tecnologias, há muito, ultrapassadas. Este novo trabalho retrata melhor a condição que se pode ter utilizando um veículo diesel.

Uma outra situação, que ao leigo pode soar surpreendente, é a apresentada no site da PSA Peugeot Citröen, onde é mostrada a eficácia do filtro de partículas. Amostras de ar foram tomadas antes e depois de adentrarem o motor. Resultado: a quantidade de partículas presente naturalmente no ar é superior à quantidade que sai do motor diesel. Não é um gás a ser respirado, óbvio, pois o oxigênio é consumido na queima do combustível. Entretanto, o filtro remove as partículas com tamanha eficiência que os gases saem com menos partículas do que o ar ambiente. E mais: o filtro, diferentemente de catalisadores, que têm uma temperatura ótima de operação, funciona com plena capacidade independentemente de temperatura. E se regeneram em uso.

Tais fatos não fazem parte do senso comum, tanto no velho mundo como no Brasil. As pessoas ainda associam o veículo diesel a um inimigo do ar das cidades. Essa sensação não corresponde à realidade e, pior, contamina nossos representantes. Os modernos motores diesel, ao contrário do que se pensa, contribuem com a melhoria da qualidade do ar, sobretudo ao substituírem os veículos incompatíveis com a vida urbana (velhos). Ainda mais em um país onde a oferta de energia elétrica é um fator limitante à entrada dos veículos elétricos e, ao contrário do que seria o desejável para a cidade, o cidadão é incentivado a manter um veículo velho, ao ter o seu IPVA reduzido ano a ano, até a isenção.

Voltando a Esopo, estamos atacando a causa da qualidade do ar que respiramos ao sacrificar o diesel?
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